jusbrasil.com.br
19 de Outubro de 2017

Precisamos falar sobre profissionalização

Gm M., Representante Comercial
Publicado por Gm M.
há 6 meses

Beatriz de Andrade

Foi divulgado nos últimos dias que familiares de atletas e funcionários da Chapecoense, vítimas do terrível acidente aéreo em novembro passado, estão acionando o clube na justiça por negligência. Na época da tragédia, me lembro ter visto apenas o jornalista Julio Gomes comentando que o clube de Chapecó não é apenas vítima do ocorrido. Os órgãos competentes irão apurar as responsabilidades, mas é preciso falar da profissionalização dos clubes brasileiros de forma mais ampla.

É totalmente compreensível a comoção e o sentimento de solidariedade em torno da agremiação que vivia seu conto de fadas. Como dizia um professor, futebol não é um negócio qualquer. “Você não vê gente querendo jogar suas cinzas sobre um supermercado”, costumava ilustrar. Um estudo realizado por cientistas portugueses comparou a relação torcedor-clube com uma relação amorosa, já que os circuitos cerebrais ativados em uma partida de futebol são os mesmos das pessoas apaixonadas.

Mas e se, ao invés da Chapecoense, a seleção brasileira de futebol, tão atacada por muitos brasileiros insatisfeitos com o modelo de governança da CBF, fosse a protagonista da tragédia? Será que existiria #forçaCBF ou veríamos inúmeros questionamentos sobre a contratação de uma empresa aérea tão obscura como a Lamia? Ah, mas a seleção Argentina também voava Lamia. Voava e Messi liderava as reclamações sobre a logística oferecida pela AFA (Associação de Futebol da Argentina), mergulhada em escândalos de corrupção.

Clube de futebol não é um negócio qualquer e nossa relação com essas instituições é diferente, mas a operação dessas organizações precisa ser profissional. Quando começou a dirigir o Bayern de Munique, Pep Guardiola solicitou que o ônibus da equipe contasse com uma cozinha própria para que os atletas pudessem se alimentar e iniciar a recuperação fisiológica logo após as partidas. Guardiola baseou-se em um estudo médico que relaciona a recuperação do atleta com sua alimentação pós-jogo. Desta forma, reduziria as chances de ter jogadores contundidos por conta do desgaste gerado pela maratona de jogos.

Enquanto isso, aqui no Brasil, o papo sobre profissionalização ainda parece restrito às atividades diretamente ligadas à promoção da marca e geração de receita. O “marketing lixo”, que os torcedores tanto criticam nas redes sociais de seus clubes, sem saber que o problema, infelizmente, é muito mais complexo do que arrumar patrocinadores (atividade esta, aliás, extremamente prejudicada pelo amadorismo das instituições e tema para outras discussões).

Nossos clubes, apesar de serem organizações sem fins lucrativos, movimentam milhões. A receita total da Chapecoense em 2015 foi de 46.5 milhões. No mesmo ano, o Corinthians teve uma receita de quase 300 milhões. Essas instituições empregam dezenas ou centenas de funcionários. Possuem dívidas fiscais milionárias, enfrentam inúmeros processos trabalhistas na justiça e de seus “departamentos pessoais” não saem processos seletivos transparentes ou códigos de ética e conduta. Grupos políticos entram e saem deixando estragos administrativos. Tudo isso em um universo totalmente permissivo onde, ainda, ninguém é legalmente responsabilizado ou punido.

De tragédias podem surgir grandes mudanças. Não custa lembrar que o futebol inglês e seus clubes se transformaram em modelos de liga e gestão profissional após o desastre de Hillsborough, em 1989, onde 96 torcedores do Liverpool morreram esmagados por uma falha operacional da polícia que gerou tumulto nas arquibancadas. Além de falha no sistema de resgate, o que contribuiu para o grande número de vítimas fatais. Falhas… Certamente não intencionais, mas o triste episódio resultou em novas regulamentações de segurança para clubes receberem torcedores nos estádios.

O futebol, por lá, hoje é tratado de forma profissional para que os erros, que nunca vão deixar de acontecer, tenham o menor impacto possível nos participantes do espetáculo. No Brasil, ainda temos dificuldade em olhar para os defeitos de algo que tanto gostamos. E de evoluir.

Neste espaço, vou falar sobre como estruturas pouco profissionais negligenciam as operações dos clubes, geram inúmeras oportunidades de corrupção e são extremamente prejudiciais ao desenvolvimento do futebol brasileiro.

*MBA na Indústria do Futebol pela Universidade de Liverpool, MAS em Administração e Tecnologia do Esporte pela Academia Internacional de Ciências e Tecnologia do Esporte (Suíça) e certificada em Estudos sobre Corrupção pela Universidade de Hong Kong.

Experiências profissionais no Santos FC, Coritiba FC, Confederação Brasileira de Rugby, Comitê Paralímpico Internacional, Museu Pelé e Rio 2016.

Precisamos falar sobre profissionalizao

Sobre Universidade do Futebol

A Universidade do Futebol é uma instituição criada em 2003 que estuda, pesquisa, produz, divulga e propõe mudanças nas diferentes áreas e setores relacionados ao universo do futebol.

http://universidadedofutebol.com.br/precisamos-falar-sobre-profissionalizacao/

0 Comentários

Faça um comentário construtivo para esse documento.

Não use muitas letras maiúsculas, isso denota "GRITAR" ;)